Geral deve saber quem é a Yoani Sanchez. Não advogo favoravelmente a ela pq conheço pouco do trabalho da blogueira. Passei a ler os textos dela no Google Reader há poucos meses com o objetivo de treinar meu vocabulário em espanhol. Se achasse que fosse essa coca-cola toda, teria um link para o Generación Y ai ao lado, mas não tenho – o que não desqualifica o trabalho dela.
Bem, esse trololó todo é para falar sobre uma entrevista feita por um Jornalista francês, Salim Lamranium, reproduzida no blog de um colega. A entrevista é enorme e, realmente, não sei se todo mundo terá interesse em ler. Mas como eu li tudo, resolvi fazer alguns comentários sobre ela.
Antes de tudo, algumas regras e explicações:
1 – a ideia da entrevista é desmascarar a Yoani e apresentá-la como uma farsa a serviço de interesses contrários à Cuba. Bem, o inverso vale para o entrevistador também: o cara parece estar a serviço (e munido) de interesses que visam desqualificar críticas ao regime cubano;
2 – sou completamente contra o regime cubano e contra qualquer regime que não aceite a democracia ou a liberdade de opinião. Os avanços sociais alegados por Cuba não são e nem podem ser considerados justificativas para esse tipo de ação totalitária contra a pluraridade.
3 – não vou esmiuçar completamente e nem resumir a entrevista, pois ela é muito longa. O link tá ali em cima e aqui – quem quiser leia, faça-o. O que vou fazer aqui é citar – e comentar – alguns trechos da entrevista que eu considero absurdos para quem se propõe a fazer Jornalismo (de letra maiúscula) sério. A ideia não é desqualificar, mas sim deixar claro que tendencionismos (extremados ou não) existem para ambos os lados. O que não pode acontecer é encarar um texto, seja de quem for, como verdade absuluta e, consquentemente bater palmas para esses apanhados ideológicos que no final das contas só querem produzir lemingues para manter um establishment, seja ele qual for.
Entendidos? Então vamos lá.
Das grosserias non-sense que encontrei na entrevista, uma que me chamou bastante atenção foi quando o entrevistador questiona o retorno da cubana ao seu país, depois de viver na Suíca:
"SL – Entendo. No entanto, apesar de todas essas razões, é difícil entender o motivo de seu regresso a Cuba quando no Ocidente se acredita que todos os cubanos querem abandonar o país. É ainda mais surpreendente em seu caso, pois a senhora apresenta seu país, repito, de modo apocalíptico."
O que transpira nessa indagação é que a pessoa não pode ter (amor?) saudades da sua pátria... ou das suas raízes. Ou seja, voltar de um país em condições financeiras, políticas e sociais muito boas, para um em situação precária (como descrito na entrevista e no blog) deveria ter um objetivo necessariamente escuso por trás. Deve ter interesses estrangeiros em desestabilizar o governo cubano com o retorno de uma bacharel em letras para o país. Afinal de contas, é inadimissível que alguém prefira estar com a família a estar distante lhes mandando dinheiro. Achei completamente desnecessário esse trecho. Uma tentativa mesquinha de desqualificar o interlocutor e seu interesse com o país.
Financiamento internacional
Uma outra tentativa de desqualificar a cubana foi a popularidade do blog dela. O jornalista levanta suspeitas sobre a capacidade do blog se manter com a sua popularidade (número de acessos e traduções).
"SL – Muitas pessoas acham difícil acreditar nisso, pois nenhum outro site do mundo, nem mesmo os das mais importantes instituições internacionais, como as Nações Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a OCDE, a União Europeia, dispõe de tantas versões de idioma. Nem o site do Departamento de Estado dos EUA, nem o da CIA contam com semelhante variedade."
Fica latente nesse trecho é que o jornalista quer descaracterizar a mulher apresentando-a como um capacho que é pago para falar mal de Cuba, e, portanto, é uma farsa, já que suas reclamações não são autênticas (por mais que tenham respaldo na realidade), mas sim encomendadas (mas isso é tema para mais adiante). Só que a argumentação do francês é infantil. Infantil pq esquece que está lidando com a internet, a forma de comunicação mais democrática nos dias atuais, e que já demonstrou inumeras vezes a sua capacidade de mobilização, e até mesmo, pq não?, solidariedade.
Para mim é completamente plausível que as traduções do site dela sejam feitas por colaboradores. Nem que alguns desses colaboradores sejam pagos pelo Mosad ou pela CNN. O fato é que a internet trás esse tipo de atitude. E comparar a inexistência dessa ferramenta, ou desses colaboradores, em sites como os elencados, é comparar alhos com bugalhos. Afinal, o site do FMI atrai tantos simpatizantes quanto um blog do estilo do Generación Y, né? A capacidade de sensibilizar e mobilizar são as mesmas.
Relação promíscua com Obama e os EUA
A ideia da entrevista toda é tentar mostrar que a Yoani é financiada por governos e instituições contrárias a Cuba, especialmente os EUA. Então ele cai de pau na suposta relação que ela teria com a Casa Branca por conta da resposta do Obama sobre questões enviadas por ela, assim como quer utilizá-la como bode expiatório para críticas às políticas estadunideneses em relação à ilha (políticas que a própria blogueira é contrária). Mas o interessante é o desfecho desse trecho da entrevista:
"SL – Ele não pode eliminá-las totalmente porque não há um acordo no Congresso, mas pode aliviá-las consideravelmente, o que não fez até agora, já que, salvo a eliminação das sanções impostas por Bush em 2004, quase nada mudou.
YS – Não, não é verdade, pois ele também permitiu que as empresas de telecomunicações norte-americanas fizessem transações com Cuba.
SL – A senhora terá de admitir que é bem pouco, quando se sabe que Obama prometeu um novo enfoque para Cuba. Voltemos a seu caso pessoal. Como explica esta avalanche de prêmios, assim como seu sucesso internacional?"
Duas coisas aqui:
1 – Querer mensurar o que é muito e pouco em relação às políticas que UM presidente pode fazer em todo seu país é atestado de miopia política – especialmente quando o jornalista conhece a realidade política dos EUA, o momento atual pelo qual ele passa e as prioridades de um governo. Então, com certeza para elimiar totalmente as restrições à Cuba (por maior boa vontade que possa existir nesse sentido) é necessário um capital político muito extenso que não está disponível no momento. Especialmente quando se quer aprovar uma reforma no sistema de saúde e tirar o país de uma crise economica gravíssima.
2 – A capacidade do jornalista de mudar o foco de sua entrevista para algo polêmico quando percebe que não tem como tirar algo capaz de desqualificar a entrevistada é clara aqui. E essa situação se repete na entrevista. Quando chega num beco sem saída para os seus próprios interesses, o jornalista muda o foco da entrevista. Isso, infelizmente, é comum em todos os ramos do jornalismo. Pessoalmente, é uma das coisas que eu mais detesto nessa profissão. É a busca pelo chocante, pelo sensacionalista. Não é a busca pela verdade (inexistente), ou mesmo pelo esclarecimento do leitor, mas sim a satisfação de interesses egoístas pessoais ou de terceiros. Acho isso deplorável, pois quando eles pegam outros fazendo isso, é crimoso, farsa, manipulação, etc. Quando eles (repetidamente) fazem – e aqui me refiro à própria pessoa, não à classe –, são capazes de uma auto-indulgência quase divina.
Resistência financiada com ajuda estrangeira
Por fim, só uma exibição de diferentes cenários e, novamente, bancar o papel de advogado do diabo.
Sou contra financiamento externo de oposição em um país. Mas em países democráticos, onde a oposição só depende dela mesma para ser ouvida. Em regimes ditatoriais, acho que deve haver alguma flexibilidade por parte da comunidade internacional, desde que ele seja caracterizado como antidemocrático e contrário à livre manifestação por essa comunidade. Entretanto, esse financiamende deve SEMPRE ser pautado pela não violência e ter como objetivo trazer de volta a liberdade democrática, e não instaurar outra ditatura.
Então vamos lá: Salim levanta questionamentos sobre 58 presos políticos cubanos, uma vez que eles não seriam presos políticos estrito senso segundo as leis cubanas ou anistia internacional. Apartir do momento em que eles aceitam recursos dos EUA para fazer oposição ao governo, eles deixam de ser criminosos políticos para se tornarem criminosos comuns.
Chamo a atenção para o fato da legislação americana citada pelo próprio entrevistador, permitir doações apenas para: “indivíduos e organizações que promovem uma mudança democrática não violenta em Cuba.” Ou seja, nada de terrorismo ou luta armada. A ideia é dar ferramentas para o DEBATE a quem não tem condições de obte-las dentro da legalidade de seu país.
O problema que ao criticar isso, olha-se apenas para um lado. Esquecem que isso acontece em vários locais do mundo, e que o próprio governo Cubano já fez isso. Mas especificamente, conosco, no Brasil. Leonel Brizola ganhou o apelido de “El Ratón”, justamente de Fidel Castro, após aceitar dinheiro cubano para financiar a luta armada no Brasil (que, segundo as más línguas, foi utilizado na compra de fazendas ao invés de cumprir seu papel revolucionário). Ou seja, Cuba também fez isso que o jornalista critica. E foi além: quis não financiar uma mudança democrática não violenta, mas sim uma revolução ARMADA, com objetivo de substituir uma ditadura por OUTRA no país. Vai contra toda norma de bom senso que um financiamento legítimo internacional possa um dia advogar.
A esse exemplo, cito também o caso da Síria e do Irã que são acusados de financiarem grupos terroristas. Ou seja, fazem a mesma coisa, porém, a crítica e denúncias contra eles só são feitas pela grande mídia, que tem os interesses judaico-capitalistas por trás dela, e não são favoráveis aos queridinhos da imprensa esquerdista, o governo Cubano, e todo antiamericanismos que vemos por ai.
Não estou advogando que essa ajuda é legal, legítima ou correta. O que disse a pouco é que sou favorável a ela, NAQUELES TERMOS. Mas entre eu ser favorável e algo ser certo (legal) são outros quinhentos. O que eu quero levantar aqui é que isso é uma prática que funciona para os dois lados. Querem apontar para o outro, mas esquecem de apontar para o próprio rabo. E isso é ridículo, infantil e de uma ardilosidade tamanha. É querer manipular o leitor, impedir que ele pense por si próprio – um deserviço ao “Jornalismo de verdade”.
E a argumentação segue com outro exemplo recente e bem sintomático:
"SL – O problema é que os dissidentes cometem um delito que a lei cubana e todos os códigos penais do mundo sancionam severamente. Ser financiado por uma potência estrangeira é um grave delito na Franca e no restante do mundo.
YS – Podemos admitir que o financiamento de uma oposição é uma prova de ingerência, mas…
SL – Mas, neste caso, as pessoas que a senhora qualifica de presos políticos não são presos políticos, pois cometeram um delito ao aceitar dinheiro dos Estados Unidos, e a justiça cubana as condenou com base nisso.
YS – Creio que este governo se intrometeu muitas vezes nos assuntos internos de outros países, financiando movimentos rebeldes e a guerrilha. Interveio em Angola e…"
Ora, então se a legislação de um país (democrático ou não) diz que algo é crime, não cabe a outros países entrar em confronto com essas determinações, correto? Bem, segundo a argumentação do francês, parece que sim. Então gostaria de saber qual é a posição dele sobre a recente crise em Honduras. A Constituição (lei máxima de qualquer país) hondurenha dizia que realização de plebiscitos para consulta sobre reeleição era crime de responsabilidade passível de perda de mandato imediata decidida pelo Judiciário. Ora, então porque toda a comunidade internacional, em especial a de ”esquerda”, classificou a situação LEGAL em Honduras como golpista e quis meter o bedelho?
Queria saber a opinião desse jornalista sobre isso.......
Escolha um lado?
Novamente, volto a bater na mesma tecla aqui: querer simplificar a política, ou qualquer atividade social do ser humano como jogo de direita/esquerda, certo/errado, nós/eles é algo, perdoem a palavra, burro. Burro pq nada pode ser simplificado a essas duas variáveis. Nada. As coisas não são simplesmente resultados de causa e efeito ou de um preto no branco. Os pontos de vistas e interesses sempre são múltiplos e devem sempre ser analisados para tentarmos formar uma opinião sobre algo. Correr para a simplificação é correr para a radicalização – uma das piores coisas que podem acontecer na esfera de relações humanas.
Yoani é uma farsa? Acho que não. Ela tem seus próprios interesses para fazer o que faz? Provalvemente sim. Recebe para falar mal do governo Castro? Não sei. Mas até que ponto o que ela diz é uma invenção e até que ponto é a relidade de um país que não aceita a democracia e a liberdade de opinião? Isso necessariamente desqualificaria as afirmações dela?
Ai cabe a cada um refletir sobre o assunto e chegar a conclusão que lhe parecer mais viável. Mas, por favor, PENSEM antes de sairem atirando.
Minha opinião em relação a ela é simples: bandida. Salafrária. Safada. Sem vergonha. Velhaca. Mentirosa. Desqualificada. Onde já se viu falar mal do Gabriel Garcia Marquez????